domingo, 17 de maio de 2009

Também se recolhem os cacos da sombra que voa

Sem Título, óleo s/t, Bel Teixeira 2008.

A sombra de um grito a correr, um grito
cheio de rachaduras na pele da noite lembrada.
Uma noite corria ao longo de janelas sonoras,
imediatas,
levando na sela, abertos como ela,
lenços.

Muito vivos, grandiosos, brancos, atados
a cascos céleres, correndo como sombras
que discordam da forma
como as coisas devem ser,
ou estar, com as patas na mesa da fantasia noturna.

E são mulheres ou lenços, mulheres de corrida, mulheres-sonho
pousadas
ao abrigo da terra, como uma estrela
pousaria na sombra,
tremendo como as estrelas tremem na escuridão,
ante o poder extraordinário
que há em serem ditas.

O céu está a galope por cima
e elas passam esquecidas, angustiadas
com a noite esquecida/lembrada,
mas que logo, logo, volta a
correr, porque faz parte do desejo das sombras
correr,
correr como os lenços brancos das estrelas
― velas que se apagam à passagem
dos imateriais.

Eu lembro:
os gritos queimam,
como as éguas e suas crinas queimam,
assim como a aragem da noite-água
viva,
aberta, correndo, lembrando.

O miolo da fechadura guarda um segredo,
da palavra pode-se voltar a fazer imagens;
no centro da tormenta
dorme o silêncio.
Às vezes, nossa pessoa cresce a tal ponto
que é engolida pelos seus
ecos.

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